"Eu não escrevo poesia, não escrevo poema. Eu só desnudo minha alma." Fátima Amaral

domingo, 20 de novembro de 2011

Fique em mim

Fique em mim assim
Só por uns instantes,
Somente o tempo de eu chegar...
Desfazer-me do véu
Dar o beijo de aceito.

Fique em mim assim
Deixe o suor sentir,
Deixa a vida se abrir
Deixe o teto mostrar o céu.

Fique em mim assim
Nessa infinitude de instantes
Para que eu possa ver
Só um pouco mais adiante.

Fique em mim assim
Que o mundo se cale
Que só sinos falem
E ouçam meu sim.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Meu eu em mim

Em mim sonho.
Em mim oponho.

Às vezes parto inteira.
Ultrapasso horizontes
Pássaro livre
Atravessando pontes.
Anjo com asa.

Às vezes parto metade.
De frente à realidade
Pé no chão
Horizonte limitado.
Anjo sem asa.

No conflito do eu, comigo
Em incertos momentos
Torno-me meu inimigo.
Às vezes apiedo-me
E dou-me abrigo.

Entre o que sonho
E o que me oponho.
Às vezes sonho contido
Às vezes sonho comigo.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Dança

Desfaz-se em giros
Rodopiado pelas ruas
Desnudas voltas
Em desatar de nós

E brilha dentro de si sóis
Claridades quentes
Aconchegos
De fases de luas

Em travessuras
De risos leves
O choro de alegria
Que nos poros arrepiam

De inquietantes saias
A rodar palavras suas
A girar poesias nuas

No corpo descompassado
Desequilíbrio de linha
Em compensada calmaria

Um sorriso puro de alegria
É grata a alma
Que sorri e rodopia.

sábado, 5 de novembro de 2011

Ontens

E pego um tanto de ontens
E me debruço com eles à janela
Alguns, estendo ao lado
Molhados de lágrimas,
Deixo-os secarem,
Se evaporam.

Outros tantos comigo conversam,
Absorta sigo seus rastros
Tiram de mim risadas
Um dia já sentidas.

Outros me fazem mais uma vez doer.
Esses me erguem,
Está neles tudo o que me serve.

E há os que não gosto
São nos ontens "de não devia"
Esses, ignoro
Já que passo atrás é impossível.

E depois de quentes pelo sol, alguns tantos
Ainda pego, ponho-os aqui dentro,
E quando os convido para olharem à frente...

Muitos são somente ontens,
Outros em hoje se tornam,
Alguns ficarão em mim amanhã.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Louca

Ela estava especialmente linda
Naquela tarde.
Olhos vidrados,
Meio sorriso fixado,
Cabelos desacordados.

Coração acelerado
Sôfrega respiração
Efêmeros sentidos,
Sentimentos sádicos.

Com um ar sutilmente insano.
Baton vermelho à boca,
Salto quinze,
Lindamente louca.

Tensa, tesa
Querendo...
Febril surpresa
De suas presas.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Silêncio

E por vezes
Sinto algo tão somente feito de silêncio,
Como se eterno o silêncio fosse.

Como se não ouvir
Nada do mundo,
Fosse melhor que
Ouvir alguma coisa.

E esse momento de quietude
Trás um instante de mim.
Que deveria um dia ter sido.

E pego esses instantes
E componho meus sentidos
E completo meus sonhos
Que agora se tornam.

E antes que o som volte
Sinto-me.

Torno-me ser aos poucos
Noutras doses de calmarias
Outros silêncios
Em outros dias.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Sensatez

Te provo aos poucos
Poucos poros por vez
Afasto-te
Assim não te gasto
Assim não te gosto
E nem desgosto
Te volto
Na saudade
Em mais pedaços
Me satisfaço
Mais nunca ao todo
Nunca de uma vez
Deixo para a volta
Para não cansar
Do desejo meu
Que teu já se fez.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Preciso do que há em mim...

Mudo meus caminhos
Me desfaço do teu sorriso
Ele não me faz sentir possível.

Aquieto-me em silêncio,
Escrevo nas paredes
O que penso.

Piso em chão não mais incerto.
Gosto do gosto do sentir, do verbo
Meu lugar me cabe,
Não são mais ocos os ecos.

Há no espelho imagem
Vejo de céus mensagem
nasci em mim, parto demorado,
tempo necessário.

Nos passos que sempre andei
Foram somente os meus números
que procurei.

Encontro-me,
E me digo...
Eu preciso do que hoje há em mim
Como nunca precisei antes.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Do sentir e da palavra

Transbordo
Sentir,
Pensar,
E por vezes penso
Que falta palavra
Para expressar.

Mas não,
Palavra é farta
Falta guiar sentimento
Por linha certa.

Mas se for somente reta
A palavra perde a sutileza.
Há de ter nos caminhos
Desvios,
Destinos,
Pra dar sentido
E beleza.

E, volto ao ponto de partida
Do sentir e da palavra
Se não há rumo
Não vejo prumo.  
Se, aprumo          
A desconcerto.       

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Um amanhã de distância

Preciso ser algo que ainda não sei
Que ainda não sou.
Preciso ir a lugares onde nunca estou
há ali falta, ausência de minha presença,
Preencho-os me preenchendo.

Há passos que já estão marcados
As pegadas estão lá fixadas
São meus números
Preciso pisá-las, vestir-me.

É o amanha está logo ali, tanto que o avisto aqui,
E eu me apresentando somente ontens.

O fio das horas me lembra que logo será manhã
(perto demais para eu conseguir me alcançar)
Preciso de mais tempo
De alguns esquecimentos.

Desfazer-me de ontem.
Desfazer-me de mim.
Preciso de um amanhã com distância de mais dias.